Ahmed Nejib Chebbi, de 81 anos, é uma das figuras mais antigas e conhecidas da oposição tunisiana e foi preso nesta quinta-feira, 4 de dezembro, em Túnis, após a confirmação de uma pena de doze anos de prisão por suposto complô contra a segurança do Estado. A detenção, realizada em sua residência na capital, foi confirmada por familiares e advogados, que classificam o caso como político e parte de uma estratégia de intimidação contra críticos do presidente Kaïs Saïed.
A condenação que agora passa a ser executada resulta de um julgamento em massa de dezenas de opositores, militantes, advogados e empresários acusados de conspirar para derrubar o governo. De acordo com organizações internacionais, o processo foi marcado por fragilidades de prova, uso amplo da legislação antiterrorismo e desrespeito a garantias básicas de defesa, o que reforça as dúvidas sobre a independência do Judiciário tunisiano.
Chebbi preside o Frente de Salvação Nacional, principal coalizão de oposição, e ocupa cargos de destaque na cena política desde a década de 1970. Ele apoiou a transição democrática após a Primavera Árabe, defendendo eleições livres, pluralismo partidário e limitação dos poderes presidenciais. Agora, para parte da sociedade tunisiana, passa a simbolizar o retrocesso institucional associado à concentração de poder promovida por Saïed em 2021.
Escalada autoritária, reações internas e preocupação internacional
A prisão do opositor soma-se a outras condenações contra críticos do presidente e reforça a percepção de que a Tunísia vive uma escalada autoritária. No mesmo processo, a militante Chaïma Issa recebeu vinte anos de prisão e o advogado de direitos humanos Ayachi Hammami foi condenado a cinco anos, penas criticadas por entidades de defesa de direitos. Alguns condenados iniciaram greves de fome em protesto, o que aumenta a tensão e chama atenção para o risco de deterioração nas prisões.
Desde o golpe institucional de 2021, quando Kaïs Saïed dissolveu o Parlamento e passou a governar por decretos, a repressão a opositores, jornalistas e sindicalistas tornou-se mais frequente. Além disso, dezenas de pessoas foram presas sob acusações vagas de conspiração, corrupção ou ameaça à segurança nacional, o que, na avaliação de analistas, serve para silenciar as principais vozes críticas ao projeto político do presidente e fragiliza o sistema de freios e contrapesos construído após 2011.
Em reação à prisão de Chebbi, partidos de oposição, sindicatos e organizações da sociedade civil divulgaram notas denunciando o que chamam de criminalização da divergência. Manifestações de solidariedade foram registradas em Túnis e em outras cidades, embora as forças de segurança mantenham forte presença nas ruas e controlem com rigor qualquer aglomeração. Para muitos militantes, a detenção do octogenário tem também caráter simbólico, pois atinge uma das últimas grandes figuras da oposição ainda em liberdade.
No cenário internacional, organizações de direitos humanos pedem que o governo tunisiano anule condenações baseadas em processos considerados injustos e liberte os detidos por motivos políticos. Em comunicados recentes, essas entidades afirmam que o caso de Chebbi está inserido em um padrão mais amplo de perseguição, com julgamentos coletivos, uso de tribunais de exceção e imputação de delitos de conspiração para restringir o espaço cívico no país.
Ao mesmo tempo, parceiros ocidentais que antes apresentavam a Tunísia como exemplo de transição democrática no Norte da África demonstram preocupação crescente. Ainda que mantenham tom cauteloso, países europeus e organismos multilaterais alertam para o risco de ruptura com o legado da Primavera Árabe, sobretudo em um contexto de crise econômica, desemprego elevado e aumento da migração irregular em direção ao Mediterrâneo.
Dentro da Tunísia, entretanto, o governo insiste em afirmar que não existe perseguição política e que as decisões da Justiça devem ser respeitadas. O presidente Kaïs Saïed se apresenta como defensor da luta contra a corrupção e contra supostos complôs, argumentando que a consolidação de um Estado forte exige tolerância zero com ameaças à estabilidade. Críticos lembram que a definição de complô tem sido cada vez mais elástica, o que permite enquadrar opositores pacíficos como conspiradores.
Enquanto isso, familiares e aliados de Ahmed Nejib Chebbi prometem recorrer às instâncias judiciais internas e internacionais, além de manter a mobilização nas redes sociais. Para eles, a prisão do líder opositor não encerra a disputa política, mas revela a profundidade da crise democrática tunisiana. Nesse sentido, o desfecho do caso tende a se tornar um termômetro para medir até onde o governo pretende ir ao controlar o debate público e limitar a atuação da oposição.



