A presença das marcas de tecnologia chinesas nos lares brasileiros deixou de ser tendência de nicho e passou a fazer parte do cotidiano, muitas vezes sem que o consumidor perceba claramente a origem desses produtos. De televisores gigantes a aparelhos de ar-condicionado, passando por smartphones e notebooks, nomes como TCL, Hisense, Xiaomi, Midea, Lenovo e Realme avançam de forma constante, aproveitando o espaço aberto por uma combinação de preços competitivos, inovação acelerada e canais de venda cada vez mais agressivos. Enquanto isso, marcas tradicionais precisam se adaptar a um cenário em que a concorrência asiática já não é sinônimo apenas de baixo custo, mas também de alto desempenho.

Televisores, celulares e eletrodomésticos ganham espaço
No segmento de TVs, a mudança é visível. A TCL, por exemplo, já figura entre as maiores fabricantes de televisores do mundo e consolidou posição de destaque no Brasil, com forte presença em telas grandes e em tecnologias como Mini LED e Google TV, apoiada em uma estratégia global de expansão que a colocou na liderança em categorias de aparelhos ultragrandes e avançados. Em paralelo, a Hisense disputa o consumidor brasileiro com modelos que vão de TVs mais acessíveis a painéis de 100 polegadas e 116 polegadas com Mini LED e brilho voltado para o público premium, reforçando a aposta em design e recursos de imagem baseados em processamento com inteligência artificial.
Ao mesmo tempo, o avanço chinês passa pelos eletrodomésticos de linha branca. A Midea Carrier, joint venture que reúne a gigante chinesa Midea e a americana Carrier, já opera fábricas no país e se consolidou como um dos principais players do mercado brasileiro de climatização e eletrodomésticos, com participação relevante em ar-condicionado residencial e comercial, além de máquinas de lavar, geladeiras e outros itens do dia a dia. Essa combinação de produção local e escala global ajuda a reduzir custos e a oferecer produtos com recursos modernos, como conectividade, modos econômicos e maior eficiência energética, em faixas de preço sensíveis para famílias de classe média.
O fenômeno também é evidente nos smartphones. A Xiaomi se tornou uma das marcas mais reconhecidas no Brasil, tanto no mercado oficial quanto no chamado “mercado cinza”, ao lado de outras chinesas como Realme, que ganharam força na América Latina apoiadas em parcerias com varejistas e operadoras. Embora a venda irregular de aparelhos tenha recuado, dados da indústria mostram que esses fabricantes seguem entre os mais vendidos, pressionando concorrentes tradicionais e ampliando a oferta de celulares intermediários com especificações avançadas.
Preço competitivo, inovação rápida e estratégia de varejo
Além da variedade, o que sustenta essa onda chinesa é uma combinação de preço agressivo e inovação rápida. Empresas como TCL e Hisense apostam em tecnologias como Mini LED, QLED, processadores de imagem com IA e integração com sistemas como Google TV para disputar diretamente com marcas coreanas e japonesas, porém com valores frequentemente mais baixos para tamanhos de tela equivalentes. No campo dos eletrodomésticos, Midea e outras marcas oferecem aparelhos com funções inteligentes e foco em economia de energia, tentando se posicionar como alternativa moderna às marcas já consolidadas no país.
Outro ponto decisivo é a estratégia de distribuição. As marcas chinesas já não dependem apenas de importadores paralelos ou de lojas especializadas. Elas ocupam espaço em grandes redes físicas e digitais, com presença em varejistas nacionais, marketplaces e lojas oficiais próprias, o que aumenta a confiança do consumidor e facilita o acesso à assistência técnica. A Hisense, por exemplo, destaca sua expansão em mais de três mil pontos de venda físicos no Brasil, além de plataformas como Mercado Livre e Amazon, indicando que o objetivo é disputar as prateleiras mais visíveis do país.
Embora muitas dessas empresas mantenham identidade claramente chinesa, algumas apostam em parcerias e joint ventures que criam uma sensação de proximidade local. Casos como o da Midea Carrier, com fábricas e centros de engenharia instalados em território brasileiro, ou da TCL, que destina investimentos específicos para o mercado nacional, sinalizam que a estratégia não se limita a exportar produtos prontos, mas também a integrar cadeias produtivas e de desenvolvimento às condições do Brasil.
Do ponto de vista do consumidor, o resultado é ambivalente. Por um lado, há mais opções de TVs grandes, celulares potentes e eletrodomésticos conectados a preços que pressionam a concorrência e ampliam o acesso a tecnologias antes restritas a segmentos de alto poder aquisitivo. Por outro lado, crescem debates sobre dependência de cadeias produtivas concentradas na Ásia, sobre a sustentabilidade da indústria local e sobre temas sensíveis como segurança de dados, ainda que, na prática, esses questionamentos raramente cheguem ao momento da compra.
Esse movimento também redefine o mapa da competição global. À medida que essas marcas encontram limites de crescimento no mercado chinês, elas intensificam a ofensiva em regiões como América Latina e Europa, usando o Brasil como um dos principais laboratórios para testar estratégias de preço, portfólio e marketing. Relatórios recentes apontam que fabricantes chineses já assumiram liderança ou vice-liderança mundial em segmentos como TVs ultragrandes e Google TVs, enquanto avançam em smartphones e linha branca.
No fim, a “onda discreta” deixa de ser discreta quando se observa a sala, a cozinha e o quarto dos lares brasileiros. A TV conectada, o ar-condicionado silencioso, a máquina de lavar de última geração e o celular que comanda tudo via aplicativo, em muitos casos, levam o selo de grupos chineses que se tornaram protagonistas silenciosos do consumo de tecnologia no país. Resta saber como indústria nacional, reguladores e consumidores vão responder a essa nova configuração, em que a disputa pelo espaço na casa passa, cada vez mais, pela disputa de espaço no tabuleiro geopolítico e industrial global.



