Relatos de imprensa internacional apontam que o presidente de Madagascar, Andry Rajoelina, deixou o país nas últimas horas, após perder o apoio de unidades-chave e ver um movimento juvenil ampliar a pressão por sua renúncia. Segundo The Guardian e a Associated Press, ele teria embarcado em uma aeronave militar francesa; autoridades francesas, contudo, não haviam confirmado a rota até o fechamento deste texto. Enquanto isso, o paradeiro do presidente segue alvo de versões conflitantes e o gabinete ainda tenta organizar um pronunciamento nacional.
O estopim da crise foi uma série de protestos que começou em 25 de setembro, impulsionada por queixas sobre cortes de energia, falta d água, custo de vida e denúncias de corrupção. A mobilização, batizada por apoiadores como um levante da Geração Z, cresceu rapidamente em Antananarivo e outras cidades. Organismos internacionais estimam ao menos 22 mortos desde o início da onda de atos, número contestado pelo governo, que divulgou contagem menor. Em paralelo, redes sociais ajudaram a organizar marchas e angariar apoio logístico.

A inflexão ocorreu quando a unidade de elite Capsat declarou que não seguiria mais ordens do governo e que assumiria responsabilidades de segurança. Em vídeos, militares pediram a colegas que se recusassem a reprimir civis e apoiaram a dissolução de estruturas consideradas ilegítimas. Para a presidência, trata-se de uma tentativa de tomada ilegal do poder, anunciada sem base constitucional. O debate sobre a cadeia de comando ganhou ainda mais opacidade após a circulação de nomes para novos postos militares.
Cenário político
No front político, a equipe de Rajoelina anunciou um discurso à nação, mas a transmissão foi cercada por ruído, com relatos de interferência na emissora estatal e mensagens desencontradas sobre a segurança do presidente. A imprensa local e religiosa registrou que o país aguardava um pronunciamento na noite desta segunda-feira, ao mesmo tempo em que cresciam dúvidas sobre a real capacidade do governo de falar em uníssono. Em paralelo, notícias citavam uma possível saída de Rajoelina em avião francês, informação não corroborada oficialmente por Paris.
Os impactos práticos já aparecem em mobilidade e serviços. A Reuters reportou suspensão de voos de ao menos uma companhia europeia rumo a Madagascar, além de troca de comando em estruturas de segurança. Em bairros da capital, comerciantes reduziram horários e escolas adiaram atividades, enquanto barreiras improvisadas surgiram perto de edifícios públicos. A situação no entorno de quartéis permanece sensível e sujeita a incidentes localizados.
Do ponto de vista diplomático, a União Africana e parceiros externos pediram contenção, proteção de civis e respeito às instituições. Fontes ouvidas pela AP mencionam o alerta de governos vizinhos, sobretudo após a chegada do ex-primeiro-ministro a Maurício, o que adiciona preocupação regional. Ainda, corpos diplomáticos monitoram a segurança de nacionais e avaliam rotas alternativas para deslocamentos essenciais.
Qual o motivo?
O pano de fundo ajuda a explicar a velocidade dos acontecimentos. Rajoelina ascendeu em 2009 após uma crise em que a Capsat foi determinante e venceu eleições contestadas em 2023, boicotadas por parte da oposição. Assim, a adesão de frações militares aos protestos de 2025 tem peso simbólico e operacional, pois desmonta a percepção de controle vertical sobre as forças. Esse desgaste encontra terreno fértil em indicadores sociais adversos e em uma economia já pressionada.
Para o movimento juvenil, a pauta avançou de serviços básicos para reformas políticas, accountability e eleições com regras rediscutidas. Organizadores afirmam que a presença de militares não elimina a natureza civil do processo e que qualquer transição precisa ser supervisionada e limitada no tempo. Porém, especialistas alertam que a fragmentação do comando e a exposição de forças a confrontos prolongados ampliam o risco de violência difusa.
O desfecho imediato dependerá de três variáveis. Primeiro, a confirmação oficial do status e da localização de Rajoelina, condição para qualquer roteiro de sucessão legítima. Segundo, a recomposição verificável da cadeia de comando, com garantias de não agressão e proteção de civis. Terceiro, a abertura de um canal de mediação com cronograma mínimo para restaurar governabilidade. Sem esses passos, a incerteza tende a prolongar a paralisia decisória e a deteriorar indicadores sociais já sensíveis.



