Federica Mogherini, ex-chefe da diplomacia da União Europeia, renunciou ao cargo de reitora do Colégio da Europa, em Bruges, e à direção da Academia Diplomática da UE após ser acusada de fraude, corrupção, conflito de interesses e violação de segredo profissional. A decisão foi anunciada em 4 de dezembro, dias depois de buscas no serviço diplomático da UE em Bruxelas, no campus do Colégio e em residências ligadas ao caso.
Segundo o Ministério Público Europeu (EPPO), a investigação se concentra na escolha do Colégio da Europa para organizar a Academia Diplomática, programa de formação de diplomatas financiado pelo bloco. Procuradores suspeitam que informações confidenciais do edital tenham sido repassadas antes da publicação, distorcendo a concorrência e dando vantagem indevida ao Colégio em contratos de alto valor.
Mogherini, que foi alta representante para a Política Externa da UE entre 2014 e 2019 e assumiu a reitoria em 2020, nega irregularidades. Em mensagem a estudantes, professores e ex-alunos, afirmou ter decidido sair para proteger a instituição, disse estar orgulhosa do trabalho realizado e declarou confiar que a Justiça esclarecerá os fatos. A defesa sustenta que as decisões ligadas à Academia seguiram os procedimentos da UE.
Além de Mogherini, são investigados o diplomata italiano Stefano Sannino, ex-secretário-geral do Serviço Europeu de Ação Externa, e um alto funcionário do Colégio. Os três foram detidos para depoimento e liberados em seguida, permanecendo sob presunção de inocência enquanto o processo corre. Sannino antecipou a aposentadoria em um cargo de direção na Comissão Europeia, alegando que o afastamento seria a forma mais adequada de preservar a instituição.
Pressão por transparência abala imagem da elite europeia
A renúncia ocorre em momento em que o próprio Colégio da Europa, visto como berço de quadros da integração europeia, vinha sendo alvo de críticas. Desde a nomeação de Mogherini, professores e diplomatas questionavam o processo de escolha e suas credenciais acadêmicas, apontando risco de politização de uma escola que se apresenta como independente. As suspeitas de favorecimento na licitação da Academia Diplomática reacendem o debate sobre conflitos de interesse entre elite política e ambiente universitário ligado às instituições da UE.
Ao mesmo tempo, o caso se soma a escândalos recentes, como as investigações de corrupção ligadas ao chamado “Qatargate” no Parlamento Europeu. Para críticos da atual arquitetura institucional, episódios desse tipo evidenciam fragilidades de controle interno e mostram que a UE ainda depende em excesso da reputação de seus dirigentes, em vez de mecanismos sólidos de prevenção e responsabilização.
Dentro da União Europeia, a repercussão é dupla. De um lado, autoridades insistem na presunção de inocência e evitam comentar detalhes da investigação. De outro, há esforço para apresentar o trabalho do EPPO como prova de que o bloco leva a sério o combate ao mau uso de fundos europeus, inclusive quando suspeitas atingem figuras de alto escalão. Nesse sentido, o caso Mogherini se torna teste para a credibilidade dos instrumentos criados para proteger o orçamento comum.
Entre estudantes e ex-alunos do Colégio da Europa, o clima é de perplexidade. Muitos reconhecem o papel de Mogherini na expansão da instituição, com a abertura de um campus em Tirana e a ampliação de bolsas para jovens de países dos Bálcãs e da vizinhança oriental. Cresce, cada vez mais, o receio de que o escândalo deixe marcas duradouras na imagem do Colégio e no valor dos diplomas, em um momento em que a UE tenta reforçar sua presença em regiões estratégicas.
Enquanto isso, o conselho administrativo busca uma saída para a sucessão na reitoria e para o futuro da Academia Diplomática, que poderá ter seu desenho revisto à luz das investigações. Há pressões para que o próximo dirigente tenha perfil acadêmico e seja escolhido em processo considerado irrepreensível, com critérios públicos e participação ampla da comunidade universitária. O desfecho jurídico, somado à escolha da nova liderança, indicará se o bloco está disposto a enfrentar as zonas cinzentas onde transita parte de sua elite.
Por fim, para um projeto que pretende se apresentar como referência global de Estado de direito, a capacidade de lidar com suspeitas de corrupção dentro de casa será central para manter credibilidade junto a cidadãos europeus e parceiros externos. Nesse sentido, a saída de Federica Mogherini do Colégio da Europa extrapola sua biografia e expõe o desafio da União Europeia em conciliar poder político, privilégios de sua elite e a promessa de transparência que afirma defender.


