O Exército de Israel anunciou nesta quinta-feira, 4 de dezembro, uma nova onda de bombardeios contra o sul do Líbano, acompanhada de ordens de evacuação dirigidas a moradores de vilas próximas à fronteira. Segundo o comunicado militar, os ataques têm como alvo “infraestruturas militares” do Hezbollah em diferentes localidades, em resposta ao que Tel Aviv descreve como tentativas do grupo de se rearmar e restabelecer posições na região.
Antes das explosões, o porta-voz do Exército israelense em árabe divulgou mensagens nas redes e em aplicativos de comunicação, exibindo mapas e coordenadas, pedindo que habitantes se afastassem imediatamente de determinados edifícios em Jbaa e Mahrouna, e de áreas num raio de pelo menos 300 metros. A promessa era de ataques “imminentes” contra pontos classificados como depósitos de armas ou centros operacionais do Hezbollah, instalados, segundo Israel, no coração de zonas residenciais.
Na prática, as bombas atingiram ao menos quatro localidades, onde equipes de imprensa registraram nuvens densas de fumaça, fachadas destruídas e casas reduzidas a escombros. Em Jbaa, autoridades locais afirmaram que a área alvo era estritamente civil, descrevendo portas retorcidas, vidraças estilhaçadas e danos em praticamente todos os imóveis em um amplo perímetro. Relatos de moradores falam em deslocados buscando abrigo em vilarejos vizinhos e no temor de que a rodada de ataques seja apenas o início de uma escalada maior.
Do lado israelense, a versão oficial insiste que os bombardeios miraram apenas locais de armazenamento e logística militar do Hezbollah, apresentados como “mais um exemplo” do uso de bairros habitados como escudo humano. Ao justificar a operação, o Exército afirmou que age para impedir o grupo de reconstruir sua capacidade armada no sul do Líbano, em descumprimento direto da trégua em vigor desde o fim de 2024. Para o governo de Benjamin Netanyahu, os ataques seriam, portanto, uma forma de “fazer cumprir” o próprio acordo de cessar-fogo.
Negociações diretas, cessar-fogo frágil e risco de nova guerra
Os bombardeios ocorrem justamente um dia depois de uma reunião descrita como a primeira rodada de conversas diretas em mais de quarenta anos entre representantes civis de Israel e do Líbano, sob a mediação de um mecanismo de supervisão do cessar-fogo que envolve Estados Unidos, França e Nações Unidas. O encontro havia sido considerado “positivo” pelo presidente libanês Joseph Aoun, que anunciou a retomada das discussões em 19 de dezembro e defendeu que “não há alternativa à negociação” para evitar uma nova guerra em larga escala.
Beirute, porém, denuncia os ataques como violações claras da trégua e alerta para o impacto psicológico sobre uma população que já vive sob pressão econômica e política. O governo libanês insiste que Israel mantém posições militares em território libanês no extremo sul do país, contrariando resoluções da ONU, e condiciona qualquer normalização futura à retirada total dessas forças. Ao mesmo tempo, reforça que não pretende firmar uma paz separada, tentando equilibrar a exigência de soberania nacional e a influência de aliados regionais, como o Irã.
Nos últimos meses, Israel intensificou o uso de ataques aéreos em resposta a lançamentos de foguetes, drones e outras ações atribuídas ao Hezbollah. Em novembro, uma ofensiva atingiu a periferia sul de Beirute e matou o chefe militar do grupo, Haitham Ali Tabatabai, elevando o grau de tensão entre as partes. Desde então, moradores do sul do Líbano convivem com sobrevoos constantes, deslocamentos forçados e o medo de que o conflito “controlado” saia do eixo e volte ao patamar de confrontos abertos, como em 2006.
Organismos internacionais acompanham a situação de perto. Uma delegação da ONU, com participação de enviados norte-americanos, deve visitar a região para avaliar os danos e verificar se os ataques respeitam ou não os termos do cessar-fogo. Paralelamente, chancelerias europeias defendem, em declarações públicas, a manutenção do mecanismo de monitoramento como principal instrumento para conter a escalada e preservarem alguma previsibilidade na fronteira. Ainda assim, diplomatas admitem, em reservado, que o equilíbrio é precário.
Para a população local, o debate geopolítico parece distante diante da destruição concreta de casas, comércios e estradas. As ordens de evacuação, mesmo quando precedem os ataques, não garantem saídas seguras, já que muitas famílias não dispõem de veículos ou locais alternativos para se instalar. Ao transformar vilas inteiras em potenciais alvos sob o argumento de presença de infraestrutura militar, o conflito volta a se traduzir em perdas civis que dificilmente serão revertidas por futuras mesas de negociação.
Nesse cenário, o sul do Líbano permanece como um dos pontos mais sensíveis do tabuleiro regional. De um lado, Israel busca impor custos ao Hezbollah e afastá-lo da fronteira, com apoio explícito de Washington. De outro, o governo libanês tenta evitar um colapso completo da segurança interna, ao mesmo tempo em que lida com pressões econômicas, deslocamento de moradores e a necessidade de preservar sua própria legitimidade interna. O desenrolar das próximas semanas, entre novas rodadas de conversa e a possibilidade de mais bombardeios, deve indicar se a fronteira seguirá em estado de alta tensão permanente ou se ainda há espaço para um recuo ordenado da violência.


